Publicado por: lobusdaestepe | março 2, 2008

Cruzeiro por Ricardo Freire

 Pronto. Aos quarenta e quatro anos, finalmente perdi a virgindade cruzeiral.

Caso alguém aí se lembre do easyCruise que eu fiz pelo Caribe, no finzinho do ano retrasado, já vou dizendo: aquele não conta. Não era bem um cruzeiro. Era um pequeno ônibus marítimo carregando um grupelho de desgarrados que jamais subiria num cruzeiro de verdade.

Um dia eu teria que fazer um cruzeiro de verdade. A oportunidade veio sob a forma de um teste do navio Zenith, do consórcio CVC-Pullmantur, para integrar um especial de cruzeiros da Viagem & Turismo.

Posso resumir a experiência em duas frases. 1) Tudo deu hipersupercerto e transcorreu de maneira bem melhor do que eu imaginava. 2) Pelamordedeus, não me embarquem nunca mais num troço desses.

Vamos por partes.

1) Tudo deu supercerto e transcorreu melhor do que eu imaginava

O navio não chacoalhou. Minha cabine tinha janela. Meus companheiros de mesa eram da maior simpatia; tomaria um chope com todos eles, juntos ou separadamente, na primeira oportunidade. Com exceção de um diazinho (em oito!), o tempo esteve ótimo: ensolarado e não muito quente. Não enjoei. Gostei da comida. O serviço era excelente. Bebi a valer. Tomei sol de montão. Me diverti nos shows. As escalas não poderiam ser melhores: Buenos Aires e Punta del Este, com direito a curtir a noite em terra firme.

No geral, só teria um reparo a fazer: dois dias de navegação na ida e dois dias de navegação na volta é muito tempo dentro de um navio. É preciso gostar muito de navio. Não é o meu caso. Mas juro que isso não interfere de maneira demasiada na segunda parte deste tratado.

2) Não me embarquem nunca mais num troço desses

Antes de mais nada, é preciso dizer que o mundo lá fora está pouco se lixando com a opinião que eu possa ter sobre viajar em cruzeiro. A indústria de cruzeiros é um sucesso retumbante; os navios estão cada vez maiores, partem sempre lotados e cobrem mais destinos a cada temporada. É inútil – além de ecologicamente incorreto – sacrificar mais árvores para falar mal deles. Na revista vou me ater aos pontos objetivos do navio – que, por sinal, merece elogios em praticamente todos os itens.

Oito dias num navio me imprimiram respeito e admiração pelo fato de um negócio que carrega 1.800 passageiros e 700 tripulantes funcionar tão bem (tirando o embarque inicial e o desembarque definitivo, que foram caóticos). Mesmo excedendo minhas expectativas em muitos quesitos, esses oito dias num navio acabaram também reforçando a maioria das implicâncias que eu tinha antes de embarcar.

Desculpaê, mas não é um tipo de viagem que me emocione. Não há como não se sentir numa mega-excursão – só que, em vez dos 28 companheiros de um ônibus, você tem 1.898 colegas a bordo. Repito: me diverti, comi bem, bebi bastante, fui bem atendido, tostei ao sol, ri nos shows. Dezenas de passageiros devem ter fotos minhas, de sunga, taça de espumante na mão, chacoalhando os michelins ao som de um cover de Ivete Sangalo (ei, eu gosto) ou Jota Quest (pensei que não gostasse, mas…).

O problema é que, mesmo me divertindo, em nenhum momento eu perdi a consciência de que, dispondo de grana e tempo semelhantes, eu tomaria sol, comeria, beberia, assistiria a shows e chacoalharia os michelins em lugares bem mais interessantes.

O lado bom de ter tanto tempo ao mar é que deu para meditar bastante sobre o assunto 🙂

Minhas reflexões sobre cruzeirar:

– Do navio como meio de transporte. Se o cruzeiro levar a lugares inacessíveis por outro meio, ou cujo trajeto seja mais bonito ou mais prático pela água, eu consideraria embarcar. Mas me certificaria de que as paradas são suficientemente longas para que os lugares sejam visitados como se deve. Não gostaria de ficar refém de city-tours. Nem de percorrer meia-dúzia de lugares na mesma viagem só para ver se gostaria de, um dia, voltar com calma. Chega. Já tenho no meu currículo lugares demais aos quais eu preciso voltar porque passei muito rápido (nessa viagem arranjei mais um: Punta). De uns tempos para cá, resolvi que só quero voltar a lugares que visitei tão bem, mas tão bem, que deu vontade de curtir mais (nessa viagem tinha um: Buenos Aires).

– Do navio como destino. Obrigado: eu passo. Não há nada de histórico, pitoresco, exótico ou estiloso num navio. E quando eu viajo, são essas coisas que eu procuro num destino. Sei que existem navios mais sofisticados do que esse em que embarquei – mas tenho certeza de que será uma sofisticação à Las Vegas. Plastificada. Confesso que lamento não ter atravessado o Atlântico a bordo do Queen Elizabeth; faria essa viagem como quem embarca no Orient-Express. Mas não repetiria a experiência só para ver como é cruzeirar num navio moderno mais chique do que esses que passam pelo Brasil. Prefiro ir direto a Las Vegas.

– Do navio como hotel. Se tudo estiver absolutamente nos trinques, será tão bom quanto um hotelão americano de seiscentos quartos. Há quem ame, mas não faz o meu estilo.

– Do navio como resort. Um navio all-inclusive é muito mais all-inclusive do que qualquer resort all-inclusive. Porque além da comida e da bebida há uma oferta de entretenimento impossível de igualar. Um resort não tem como manter cinco bandas diferentes se revezando para tocar ao vivo em três ou quatro ambientes. Sem falar nos pianistas intercalando shows no piano bar. E o cassino. E a discoteca. E as atividades não-esportivas – bingo, quiz, karaokê, aulas de dança. Para os pais, é uma tranqüilidade saber que os filhos adolescentes podem ficar até altas horas na boate e não vão precisar voltar de carro para casa. Para reagir à concorrência, muitos resorts estão implementando o sistema all-inclusive (acho que isso é incontornável; esse é o padrão internacional) e investindo no entretenimento. Mas acho que poderiam enfatizar mais seus diferenciais: contato com a natureza, variedade de atividades esportivas, e sobretudo a possibilidade de relaxar. No navio é muito difícil descansar – não há ambiente apropriado, e os estímulos à atividade são permanentes. Não consegui dormir nenhum dia antes das duas da manhã – e isso que eu nem freqüentei a boate. Voltei mais cansado do que embarquei.

– Do navio como economia. É um ponto importante. Na ponta do lápis, cruzeiros podem ter ótima relação custo x benefício – sobretudo os que não incluem bebidas, e que por isso são mais em conta do que os all-inclusive (isto é, desde que você não beba no navio). Mas, novamente, aí entra a questão de gosto: se é para economizar, eu prefiro me sujeitar a menos conforto e mais rusticidade, fazendo uma viagem “budget” em terra firme.

– Do navio como festa. Os navios-balada, que estão cada vez mais comuns na costa brasileira, têm um apelo irresistível. Se você embarcar com a turma certa, deve ser ótimo. Mas, de novo – não encaro isso muito como viagem, mas como uma rave ambulante.

Aliás, “não encaro isso como uma viagem” é uma frase que se encaixa perfeitamente nessa minha experiência.

Ao desembarcar em Santos, não me senti voltando de uma viagem. Me senti voltando de uma matéria. Foi a primeira vez que isso aconteceu desde que comecei a viajar mais ou menos profissionalmente, há nove anos.

Acredito que as viagens têm o poder de fazer você viver temporariamente uma outra vida. Durante o tempo que você está fora de casa, você pode brincar de ser mais pobre, mais rico, mais louco, mais careta, mais corajoso, mais esperto, mais culto, mais bobo, mais desencanado, enfim, diferente, e certamente mais bacana, do que você é na vida real.

Embarcar num cruzeiro, porém, é como jogar o seu condomínio ao mar. Não há nada de diferente para descobrir. Nenhum cantinho para se esconder. Nenhuma experiência única e transcendental a ser vivida. Serão cinco, sete, oito ou dez dias em que você não vai conseguir escapar daquela vidinha classe-média de todos os outros dias.

Repito: me diverti, comi bem, bebi bastante, fui bem atendido, tomei todo o sol que queria, bati bons papos, e me confrontei, por dias a fio, com a minha própria mediocridade. Eu não sou melhor do que ninguém. Mas, por favor, não venha me lembrar disso justo quando estou viajando.

Anúncios

Responses

  1. Pensei que eu era sozinha, a me sentir um peixe, graças a Deus, fora
    dágua, em se tratando de Cruzeiro!
    Até a narração é igual: tudo lindo, maravilhoso, todas as opções disponíveis para entender uma multidão de colegas de excursão, mas Ricardo, você tem razão : FALTA CHÃO, em todos os sentidos!Fingir que fui e não fui!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: